Papa Francisco aos jornalistas: a xenofobia é “uma doença”

Por: noticias.cancaonova.com

No voo de volta da África a Roma, Francisco pediu a preservação da identidade dos povos mediante as colonizações ideológicas

Da redação, com Vatican News

Papa durante coletiva de imprensa realizado durante voo de volta a Roma/ Foto: Reuters – Alessandra Tarantino

Após duas horas e meia da decolagem do voo Air Madagascar de Antananarivo a Roma, o Papa Francisco encontrou-se com os jornalistas a bordo do voo papal e falou com eles durante cerca de uma hora e meia respondendo às suas perguntas.

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Paz em Moçambique

Primeiro, o Pontífice respondeu sobre quais seriam as suas expectativas para o processo de paz em Moçambique e deixou uma mensagem a Moçambique. O Santo Padre comentou a xenofobia que existe na África e o impacto das redes sociais na educação dos jovens.

“O primeiro ponto sobre o processo de paz. (…) Espero que isto continue e rezo por isso. Convido todos para que façam um esforço para assegurar que este processo de paz prossiga. Porque tudo se perde com a guerra, tudo se ganha com a paz, disse um Papa antes de mim (Pio XII, ndr). Isto é claro, não devemos esquecê-lo. É um longo processo de paz porque teve uma primeira etapa, depois parou, depois outra… E o esforço dos líderes das partes contrárias para não dizer inimigos é o de ir ao encontro um do outro. É também um esforço perigoso, algumas pessoas arriscavam as suas vidas, mas no final chegou-se à conclusão. Gostaria de agradecer neste processo de paz todas as pessoas, todas as pessoas que deram uma contribuição”.

O Santo Padre prosseguiu: “Nós não devemos ser triunfalistas nestas coisas. O triunfo é a paz. Não temos o direito de ser triunfalistas, porque a paz ainda é frágil no seu país, tal como é frágil no mundo. A paz deve ser tratada da mesma forma como se tratam as coisas recém-nascidas, como as crianças, com muita, muita ternura, com muita delicadeza, com muito perdão, com muita paciência, para fazê-la crescer e ser robusta. É o triunfo do país: a paz é a vitória do país, é preciso entender isso….. E isso vale para todos os países, que se destroem com a guerra. As guerras destroem, fazem perder tudo”.

O segundo ponto, o problema da juventude na África, foi também comentado por Francisco. “A África é um continente jovem, tem uma vida jovem, se a compararmos com a Europa, e vou repetir o que disse em Estrasburgo: a mãe Europa quase se tornou “avó Europa”. Envelheceu, estamos vivendo um inverno demográfico muito grave na Europa. Li – não me recordo de que país, mas trata-se de uma estatística oficial do governo – que em 2050 naquele país haverá mais aposentados do que pessoas que trabalham, e isso é trágico. Qual é a origem deste envelhecimento da Europa? Eu, é uma opinião pessoal, penso que o bem-estar está na raiz. Agarrar-se ao bem-estar – ‘Mas, nós estamos bem, eu não tenho filhos porque tenho de comprar uma casa, tenho que fazer turismo, estou bem assim, um filho é um risco, nunca se sabe…’. Bem-estar e tranquilidade, mas é um estar bem que o leva a envelhecer. Em vez disso, a África está cheia de vida”.

O Santo Padre contou ter encontrado na África um gesto que tinha encontrado nas Filipinas e em Cartagena, Colômbia: “As pessoas que levantavam as crianças como se dissessem ‘este é o meu tesouro, esta é a minha vitória, o meu orgulho’. É o tesouro dos pobres, a criança. Mas é também o tesouro de uma pátria, de um país. Eu vi o mesmo gesto na Europa Oriental, em Iasci, especialmente aquela avó que mostrava a criança: este é o meu triunfo… Vocês têm o desafio de educar esses jovens e fazer leis para esses jovens, a educação neste momento é uma prioridade no seu país. É uma prioridade que se cresça tendo leis sobre a educação. O primeiro-ministro de Maurício falou comigo a este respeito. Ele disse que tinha em mente o desafio de fazer crescer o sistema de educação gratuito para todos. A gratuidade do sistema educativo: é importante porque existem centros educativos de alto nível, mas a pagamento. Existem centros educativos em todos os países, mas é preciso multiplicá-los para que a educação chegue a todos”.

A xenofobia foi criticada severamente pelo Pontífice: “Li nos jornais sobre esta xenofobia, mas não é apenas um problema da África. É uma doença humana, como o sarampo… É uma doença que entra num país, entra num continente, e colocamos muros. Mas os muros deixam sozinhos aqueles que os constroem. Sim, deixam de fora muitas pessoas, mas aqueles que permanecerem dentro dos muros ficarão sozinhos e no final da história derrotados por causa de grandes invasões. A xenofobia é uma doença. Uma doença “justificável”, por exemplo, para manter a pureza da raça, apenas para falar de uma xenofobia do século passado. E muitas vezes as xenofobias cavalgam a onda dos populismos políticos. Disse na semana passada, ou na semana retrasada, que às vezes ouço, em alguns locais, discursos que se assemelham aos de Hitler de 1934. É como se na Europa houvesse um pensamento de retorno”.

Na África, o Santo Padre afirmou ter um problema cultural que tem de ser resolvido: o tribalismo. Segundo o Papa, é necessário um trabalho de educação, de aproximação entre as diferentes tribos para a criação de uma nação. “Comemoramos há pouco o 25º aniversário da tragédia de Ruanda: é um efeito do tribalismo. Lembro-me no Quênia, no estádio, quando pedi a todos que se levantassem e apertassem as mãos e dissessem “não ao tribalismo, não ao tribalismo…. Devemos dizer não. Trata-se de um fechamento. E há também a xenofobia doméstica, mas em todo caso uma xenofobia. Temos de lutar contra isso: seja a xenofobia de um país em relação a outro, seja a xenofobia interna, que, no caso de alguns lugares na África e com o tribalismo, conduz a uma tragédia como a de Ruanda”.

Jovens de Madagascar

A situação dos jovens de Madagascar foi tema de uma das perguntas realizadas ao Papa. O Pontífice respondeu o seguinte questionamento: “Como pode a Igreja acompanhar os jovens diante do fato que os seus ensinamentos são considerados ultrapassados e diante da revolução sexual de hoje?”. Segundo Francisco, a família tem a responsabilidade da educação dos filhos. “Foi emocionante como os jovens de Madagascar se expressaram, vimos isso também em Maurício e também com os jovens de Moçambique do encontro inter-religioso pela paz. Dar valores aos jovens, fazê-los crescer. Em Madagascar, o problema da família está ligado ao problema da pobreza, à falta de trabalho e muitas vezes também à exploração do trabalho”, apontou.

“São fundamentais as leis que protegem o trabalho e a família. E também os valores familiares, que existem, mas são muitas vezes destruídos pela pobreza: não os valores, mas a capacidade de transmiti-los e de continuar a educação dos jovens. (…) O Estado deve cuidar da família, dos jovens. E é dever do Estado de levá-los adiante. Então, repito, para uma família ter um filho é um tesouro. E vocês têm essa consciência, têm a consciência do tesouro. Mas agora é necessário que toda a sociedade tenha consciência de fazer crescer este tesouro, de fazer crescer o país, de fazer crescer a pátria, de fazer crescer os valores que darão soberania à pátria. Uma coisa sobre as crianças que me impressionou nos três países é que as pessoas me saudavam. Havia também crianças pequenas que também saudavam, estavam muito alegres. Mas sobre a alegria eu gostaria de falar mais tarde”.

Alegria em Madagascar

O Santo Padre afirmou que o que o impressionou nos três países que visitou (Moçambique, Madagascar e Maurício), com destaque para Madagascar, foi o povo. “Na missa no estádio debaixo de chuva estava o povo, que dançava debaixo da chuva, feliz… E também na vigília noturna, a missa – que dizem que tinha mais de um milhão, eu não sei, é o que dizem as estatísticas oficiais, eu vou um pouco abaixo, digamos 800 mil. Mas o número não interessa, interessa o povo, as pessoas que foram a pé na tarde precedente, ficaram na vigília, dormiram ali – eu pensei no Rio de Janeiro em 2013 (a Jornada Mundial da Juventude), que dormiam na praia – era o povo que queria estar com o Papa. Eu me senti humilde, pequeníssimo diante da grandeza da soberania popular”, afirmou o Papa, recordando a JMJ 2013.

Francisco questionou: “E qual é o sinal de que um grupo de pessoas é povo?”. Respondeu:  “A alegria”. O Pontífice continuou relembrando sua experiência com os malgaxes: “Havia pobres, tinha gente que não tinha comido naquela tarde para estar ali, estavam alegres. Ao invés, quando as pessoas ou os grupos se separam daquele sentido popular da alegria, a perdem. É um dos primeiros sinais, a tristeza dos solitários, a tristeza daqueles que esqueceram as suas raízes culturais. Ter consciência de ser um povo é ter consciência de ter uma identidade, de ter uma consciência, de ter modo de entender a realidade e isso congrega as pessoas. Mas o sinal de que você está no povo e não numa elite, é a alegria, a alegria comum. Isso quis destacar. E por isso as crianças saudavam assim, porque os pais as contagiavam com a alegria”.

Instituições Internacionais e Maurício

Sobre Maurício, o Santo Padre foi questionado: “O primeiro-ministro de Maurício lhe agradeceu por sua preocupação com o sofrimento dos nossos concidadãos que foram obrigados a abandonar o próprio arquipélago do Reino Unido depois da ilícita separação desta parte do nosso território antes da independência. Hoje, na ilha de Diego Garcia, há uma base militar estadunidense. Santo Padre, os chagossianos em exílio forçado há 50 anos querem regressar a suas terras e as respectivas administrações dos Estados Unidos e do Reino Unido não permitem que isso aconteça não obstante exista uma resolução das Nações Unidas de maio passado. Como o senhor poder apoiar a vontade dos chagossianos e ajudar o povo de Chagos a voltar para casa?”.

O Papa repetiu o que diz a Doutrina da Igreja. “As organizações internacionais, quando nós as reconhecemos e atribuímos a elas a capacidade de julgar em escala mundial – pensemos no tribunal internacional de Haia ou nas Nações Unidas – no momento em que fazem afirmações se somos uma humanidade (um consenso civil), temos o dever de obedecer. É verdade que nem sempre as coisas que parecem justas para toda a humanidade o são para o bolso, mas se deve obedecer às instituições internacionais, para isso foram criadas as Nações Unidas, foram criados os tribunais internacionais. Depois há outro fenômeno que, porém, o digo claramente, não sei se tem pertinência a este caso. Quando chega a libertação de um povo (um povo obtém a independência) e o Estado dominante deve ir embora– na África verificaram-se muitos processos de independência da França, da Grã-Bretanha, da Bélgica, da Itália, todos tiveram que deixar, alguns amadureceram bem – mas em todos há a tentação de ir embora com algo no bolso: sim eu dou a liberdade a este povo, mas algumas migalhas eu levo embora”, alertou.

“As organizações internacionais têm que fazer um processo de acompanhamento, reconhecendo às potências dominantes aquilo que fizeram àquele país e reconhecendo a boa vontade de ir embora e ajudando-os a deixar totalmente, com liberdade, em espírito de fraternidade”, afirmou o Pontífice. De acordo com Francisco, a iniciativa é um trabalho cultural lento da humanidade e as instituições internacionais ajudam, por isso a necessidade de um fortalecimento destas instituições. “Que as Nações Unidas retomem bem o seu papel, que a União Europeia seja mais forte, não no sentido do domínio, mas no sentido da justiça, da fraternidade, da unidade para todos. Isto creio seja uma das coisas importantes”.

O Santo Padre aproveitou a oportunidade para falar sobre as colonizações ideológicas. Segundo o Pontífice, estas colonizações querem entrar na cultura dos povos e transforma-los culturalmente e homogeneizar a humanidade. “É a imagem da globalização como uma esfera, todos os pontos equidistantes do centro. Ao invés, a verdadeira globalização não é uma esfera, é um poliedro onde cada povo preserva a própria identidade, mas se une a toda a humanidade. Ao invés, a colonização ideológica busca cancelar a identidade dos outros para torná-los iguais e chegam com propostas ideológicas que vão contra a natureza daquele povo, a história daquele povo, contra os valores daquele povo. E devemos respeitar a identidade dos povos, esta é uma premissa a ser defendida sempre. Deve ser respeitada a identidade dos povos e assim expulsamos todas as colonizações”.

Ainda sobre Maurício, o Papa destacou a capacidade de unidade inter-religiosa e de diálogo inter-religioso. Para o Pontífice, não se cancela a diferença das religiões, mas se destaca que todos são irmãos, que todos devem falar, e este é um sinal de maturidade do país. “O respeito religioso é importante, por isso aos missionários digo que não façam proselitismo. O proselitismo que o façam no mundo da política, do esporte – torça pelo meu time, pelo seu… – mas não na fé”.

O Papa prosseguiu: “Mas o que significa para o senhor, Santo Padre, evangelizar? Há uma frase de São Francisco que me iluminou muito. Francisco de Assis dizia aos seus frades: ‘Levem o Evangelho, se for necessário, também com as palavras’. Isto é, evangelizar é aquilo que lemos no Livro dos Atos dos Apóstolos: testemunho. E aquele testemunho provoca a pergunta: ‘Mas você por que vive assim, por que faz isso?’. E ali explico: ‘É pelo Evangelho’. O anúncio vem antes do testemunho. Antes viva como cristão e se perguntarem, fale. O testemunho é o primeiro passo e o protagonista da evangelização não é o missionário, mas o Espírito Santo que leva os cristãos e os missionários a dar testemunho. Depois virão as perguntas ou não virão, mas conta o testemunho de vida. Este é o primeiro passo. É importante para evitar o proselitismo. Quando virem propostas religiosas que seguem o caminho do proselitismo, não são cristãs. Buscam prosélitos, não adoradores de Deus em verdade”.

Nos encontros realizados em Maurício, Francisco observou que não havia somente católicos,mas também cristãos de outras confissões, muçulmanos e hinduístas. “Isso vi também em Madagascar e ainda no Encontro inter-religioso pela paz dos jovens, com os jovens de diferentes religiões que quiseram expressar como vivem seu desejo pela paz. Paz, fraternidade, convivência inter-religiosa, nada de proselitismo, são coisas que devemos aprender pela paz”.

Informação do futuro

Sobre como será a informação do futuro, uma das perguntas da coletiva, o Santo Padre afirmou não saber, mas recordou como era trabalhada a informação no passado. “Quando eu era jovem, ainda sem tv, com o rádio ou o jornal, inclusive com o jornal clandestino que era perseguido pelo governo de turno, era vendido à noite pelos voluntários… e também oral. Se fizermos uma comparação com esta, era uma informação precária e esta de hoje será talvez precária em relação àquela do futuro. Aquilo que permanece como constante da comunicação é a capacidade de transmitir um fato, e de distingui-lo da narrativa, do que é transmitido”.

Para o Papa, uma das coisas que prejudica a comunicação, do passado, do presente e do futuro, é aquilo que é transmitido. “Há um estudo muito belo, que saiu três anos atrás, de Simone Paganeni, uma estudiosa de linguística da Universidade de Aachen, e fala do movimento da comunicação entre o escritor, o escrito e o leitor. A comunicação sempre corre o risco de passar do fato àquilo que é transmitido e isso arruína a comunicação. É importante que seja o fato e sempre aproximar-se do fato. Vejo isso também na Cúria: há um fato e depois cada um o decora acrescentando sua visão, sem má intenção, esta é a dinâmica. Portanto, a ascese do comunicador é sempre regressar ao fato, referir o fato, e depois dizer a minha interpretação, disseram-me isso, distinguindo o fato daquilo que é referido”.

“Qualquer que seja o meio de comunicação, a garantia é a fidelidade: ‘dizer que’ se pode usar? Sim, pode-se usar na comunicação, mas estando sempre alerta para constatar a objetividade do ‘se diz que…’. É um dos valores que é preciso perseguir na comunicação. Em segundo lugar, a comunicação deve ser humana, e no dizer humana entendo construtiva, isto é, deve fazer crescer o outro. Uma comunicação não pode ser usada como um instrumento de guerra, porque é anti-humano, destrói. Pouco tempo atrás passei um artigo para o padre Rueda que encontrei numa revista, que se intitulava: as gotas de arsênico da língua. A comunicação deve estar a serviço da construção, não da destruição. Quando a comunicação está a serviço da destruição? Quando defende projetos não humanos. Pensemos na propaganda das ditaduras do século passado, eram ditaduras que sabiam comunicar bem, mas fomentavam a guerra, as divisões e a destruição. Não sei o que dizer tecnicamente porque não sou formado na matéria. Quis destacar valores aos quais a comunicação, de qualquer meio, sempre deve buscar manter-se coerente”, destacou.

Proteção do meio ambiente

Para falar sobre a proteção do meio ambiente, Francisco falou sobre sua viagem à África. “Há no inconsciente coletivo um lema: a África deve ser explorada. Nós jamais pensamos: a Europa deve ser explorada. Devemos libertar a humanidade deste inconsciente coletivo. O ponto mais forte da exploração está no meio ambiente, com o desflorestamento, a destruição da biodiversidade”, alertou.

O Papa afirmou que no Vaticano, foi proibido o plástico: “Estamos neste trabalho”. Depois, o Pontífice constatou que há os “grandes pulmões do mundo”, na República Centro-Africana, em toda a região Pan-amazônica, e depois outros menores. “É preciso defender a ecologia, a biodiversidade, que é a nossa vida, defender o oxigênio, que é a nossa vida. O que me conforta é que são os jovens que levam avante esta luta, que têm uma grande consciência e dizem: o futuro é nosso, com o seu faça o que quiser, mas não com o nosso! Creio que ter se chegado ao acordo de Paris foi um bom passo avante, e depois também os outros… São encontros que ajudam a se conscientizar”.

O Pontífice pediu: “Devemos nos conscientizar começando pelas pequenas coisas. Os governantes estão fazendo tudo? Alguns mais, outros menos. É verdade que há uma palavra que devo dizer e que está na base da exploração ambiental. Eu fiquei comovido com o artigo no Messaggero de Franca (Giansoldati, ndr), que não poupou palavras e falou de manobras destrutivas e isso não somente na África, mas também nas nossas cidades, nas nossas civilizações. E a palavra feia, feia é a corrupção: eu preciso fazer isso e para fazê-lo devo desmatar e preciso da permissão do governo ou do governo provincial. Vou até o responsável – e aqui repito literalmente aquilo que me disse um empresário espanhol – e a pergunta que nós ouvimos quando querem aprovar um projeto é Quanto para mim?, descaradamente. Isso acontece na África, na América Latina e também na Europa. Em todos os lugares, quando se assume a responsabilidade sociopolítica como um ganho pessoal, ali exploramos valores, a natureza, as pessoas”.

Sobre a exploração da África, o Santo Padre retomou: “A África deve ser explorada… Mas pensemos em tantos operários que são explorados nas nossas sociedades; temos o caporalato na Europa, não inventaram os africanos. A empregada que recebe um terço daquilo que deveria não inventaram os africanos, as mulheres enganadas e exploradas pela prostituição no centro das nossas cidades, não inventaram os africanos. Também aqui há esta exploração, não somente ambiental, mas também humana. E isso é devido à corrupção. E quando a corrupção está dentro do coração, devemos nos preparar, porque chega de tudo”.

Ataque de setores da Igreja no EUA

Durante a coletiva as fortes críticas ao Papa, por parte de alguns bispos e cardeais da Igreja nos Estados Unido, foram citadas. O Pontífice respondeu aos seguintes questionamentos: “Há algo que esses críticos não entendem sobre seu Pontificado? Há algo que o senhor aprendeu com as críticas? O senhor tem medo de um cisma na Igreja americana? E se sim, há algo que o senhor poderia fazer – um diálogo – para evitá-lo?”.

Em sua resposta, o Santo Padre frisou que as críticas sempre ajudam e destacou que quando alguém recebe uma crítica, imediatamente deve fazer uma autocrítica e dizer: ‘isso é verdade ou não? Até que ponto?’.  “Eu sempre tiro benefícios das críticas. Às vezes eles te deixam com raiva … Mas as vantagens existem. Na viagem para Maputo, um de vocês me deu esse livro em francês sobre como os americanos querem mudar o Papa. Eu sabia sobre a existência desse livro, mas não o havia lido. As críticas não são somente dos americanos, existem um pouco por toda parte, mesmo na Cúria. Pelo menos aqueles que as dizem têm a vantagem da honestidade em dizê-las”.

Francisco prosseguiu: “Não gosto quando as críticas estão sob mesa: te dão um sorrido mostrando os dentes e depois te apunhalam pelas costas. Isso não é leal, não é humano. A crítica é um elemento da construção e, se a tua crítica não estiver correta, tu estás preparado para receber a resposta, dialogar e chegar ao ponto acertado. Essa é a dinâmica da verdadeira crítica. Em vez disso, a crítica das pílulas de arsênico, da qual falávamos a respeito deste artigo que dei ao padre Rueda, é um pouco de jogar a pedra e esconder a mão…”.

Para o Pontífice, a “crítica das pílulas de arsênico” não serve, não ajuda. “Ajuda os pequenos grupinhos fechados, que não querem ouvir a resposta à crítica. Em vez disso, uma crítica leal – eu penso isso, isso e isso – está aberta à resposta, isso constrói, ajuda. Diante do caso do Papa: não gosto deste Papa, o crítico, falo, escrevo um artigo e peço que ele responda, isso é justo. Fazer uma crítica sem querer ouvir a resposta e sem fazer o diálogo é não amar a Igreja, é seguir atrás de uma ideia fixa, mudar o Papa ou criar um cisma. Isso é claro: sempre uma crítica justa é bem recebida, ao menos para mim”, comentou.

“Segundo, o problema do cisma: na Igreja houve tantos cismas. Após o Vaticano I, por exemplo, a última votação, aquela da infalibilidade, um bom grupo saiu e fundou os Vetero-Católicos para serem realmente ‘honestos’ em relação à tradição da Igreja. Mais tarde eles encontraram uma evolução diferente e agora ordenam mulheres. Mas naquele momento eram rígidos, iam atrás de uma ortodoxia e pensavam que o Concílio havia errado. Outro grupo saiu calado, calado, mas não quiseram votar… O Vaticano II, entre suas consequência, teve essas coisas. Talvez a separação pós-conciliar mais conhecida seja o de Lefebvre. Sempre existe a opção cismática na Igreja, sempre. Mas é uma das opções que o Senhor deixa à liberdade humana. Eu não tenho medo de cismas, rezo para que não existam, porque está em jogo a saúde espiritual de tantas pessoas. Que exista o diálogo, que exista a correção se houver algum erro, mas o caminho do cisma não é cristão”, alertou.

O Papa recordou o início da Igreja, com tantos cismas, e afirmou: “foi o povo de Deus que salvou dos cismas”. “O povo de Deus sempre conserta e ajuda. Um cisma é sempre uma separação elitista provocada por uma ideologia separada da doutrina. É uma ideologia, talvez justa, mas que entra na doutrina e a separa. Por isso rezo para que não ocorram cismas, mas não tenho medo. Isso é um resultado do Vaticano II, não deste ou daquele outro Papa. Por exemplo, as coisas sociais que digo, são as mesmas que disse João Paulo II, as mesmas! Eu o copio. Mas eles dizem: o Papa é comunista … Entram as ideologias na doutrina e quando a doutrina escorrega nas ideologias, ali há a possibilidade de um cisma. Há a ideologia da primazia de uma moral asséptica sobre a moral do povo de Deus”.

“Os pastores devem conduzir o rebanho entre a graça e o pecado, porque a moral evangélica é essa. Em vez disso, a moral de uma ideologia assim pelagiana te leva à rigidez, e hoje temos tantas escolas de rigidez dentro da Igreja, que não são cismas, mas caminhos cristãos pseudo-cismáticas, que terminarão mal. Quando vocês vêm cristãos, bispos, sacerdotes rígidos, por trás há problemas, não há a santidade do Evangelho. Por isso devemos ser mansos com as pessoas que são tentadas por esses ataques, estão passando por um problema, devemos acompanhá-las com mansidão “, ponderou.

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