Sudão do Sul: o que acontece por lá e por que o Papa quer visitar o país?

A jovem nação africana vive um dos mais graves conflitos do mundo atual

Quase quatro anos de guerra. Milhões de desabrigados. Um dos conflitos mais graves do mundo atual. Desde 2011 o Sudão do Sul é independente do Sudão. No entanto, um ano e meio após a independência instalou-se uma guerra, que ainda causa horror e põe fim em muitas vidas todos os dias.

Mas quais são os motivos da guerra? E as barreiras no caminho para a paz?

A guerra presente: atualmente, há um conflito interno no país, entre o presidente e o vice-presidente, que representam duas etnias diferentes: dinka e nuer. De um lado, está o presidente dinka, Salva Kiir; de outro, o líder rebelde nuer Riek Machar. Há quase quatro anos, o presidente reagiu às críticas de Machar, que o considerou um homem de armas, sem nenhuma cultura democrática. Ele entendeu as diferenças como uma ameaça e o demitiu.

É o que explica o jornalista Xavier Aldekoa em seu livro Hijos del Nilo. A comunidade internacional os obrigou a negociar e os partidos firmaram um acordo de paz em agosto de 2015, que criou um governo de transição em abril 2016. Dois meses depois, entretanto, os signatários do tratado voltaram a se confrontar.   

As guerras passadas: “As pessoas estavam assustadas, pois não há ninguém que tema mais a guerra do que quem há viveu seu horror”, assegura Aldekoa na mencionada publicação, em que narra sua passagem pelo país no verão de 2016. O Sudão do Sul vem de dois conflitos de quase quatro décadas com o Sudão: o primeiro foi entre 1995 e 1972 e o segundo entre 1983 e 2005. Só uma trégua de 11 anos separou as guerras. A independência do Sudão do Sul em 2011 (apoiada pelos Estados Unidos por claros interesses no petróleo do país) levou esperança de paz à região.

Petróleo e pobreza: Antes da independência, o sul produzia 85% do petróleo do país. No entanto, uma das suas principais fontes de riqueza é também uma das principais fontes do conflito que provoca sua profunda pobreza.

Além das diferenças étnicas, a falta de saída para o mar para exportar o petróleo a partir do Sudão do Sul e as dificuldades para acessar o transporte via Sudão foram as causas das guerras passadas e são um pano de fundo da guerra atual. Na verdade, as condições econômicas se deterioraram quando, em janeiro de 2012, o governo sul-sudanês decidiu parar a produção do petróleo por causa de desacordos bilaterais com o Sudão. Atualmente a inflação do país é de cerca de 800%.

Crise humanitária: O conflito entre o governo e a oposição desencadeou uma grande crise humanitária, com mais de dois milhões de sul-sudaneses deixando seus lares e procurando outras regiões do país e quase um milhão de pessoas atravessando as fronteiras e procurando abrigos em países como: Quênia, Uganda, Etiópia e Sudão. Em fevereiro de 2017, o país decretou situação de fome.

Mortalidade materna: É um dos países com as maiores taxas de mortalidade materna por diversas razões: falta de serviços sanitários, infraestrutura deficiente e tradições que fazem com que muitas mulheres comecem a ter filhos muito jovens e com assistência caseira. Assim, é mais difícil superar complicações durante a gravidez e o parto.

Educação: Menos de 1/3 da população é alfabetizada. Na verdade, 85% da população não sabem ler. Motivos: falta de recursos e situações de migrações por causa dos conflitos.

Religião: As principais religiões do Sudão do Sul são o cristianismo e diversas crenças animistas. No Sudão, o islã é a religião predominante. Esta diferença também é uma das causas dos conflitos. No entanto, “nos momentos de guerra, as religiões podem oferecer muitos espaços de encontro e de construção da paz”, explica Paul Vidal, religioso jesuíta que está trabalhando no campo de refugiados de Maban (Sudão do Sul), em entrevista a um programa da TV da Catalunha.

O missionário conta como as pessoas de lá vivem a religiosidade com alegria: “é um elemento de esperança, que articula a vida cotidiana. As Missas acontecem a cada duas horas. São os momentos de encontro, de celebração. Apesar das dificuldades, são a prova de que ainda vivemos com sentido e celebramos a vida”, assegura.

O jesuíta Vidal, além de ser formado em Arquitetura e Teologia, fez mestrado em Teologia das migrações, uma disciplina recente, que tenta investigar a experiência de Deus que se revela naqueles que vivem como refugiados. “Trata-se de conhecer Jesus naquele que bate à porta”, destaca na entrevista.

Para ele, “o momento é complexo e com pouca esperança. Estamos na noite escura, acompanhando o povo em um momento difícil”, afirma, referindo-se tanto aos refugiados quanto aos habitantes da região. A ação jesuíta no loca se baseia na educação, pastoral e no trabalho social. “Se não prepararmos engenheiros, professores ou médicos agora, embora estejamos em conflito, o futuro nunca chegará”, destaca.

As pessoas no Sudão do Sul, de acordo com Vidal, “precisam viver sua vida com sentido e poder imaginar um amanhã diferente. Isso não é fácil num campo de refugiados. Mas, apesar de tudo, esse desejo está muito presente. A vida pede mais espaço diante das experiências muito traumáticas; na visão cristã, trata-se da ressurreição, que tem mais importância do que a morte”, afirma o jesuíta.

O Papa Francisco teve que desistir de viajar para o Sudão do Sul em 2017 por causa da guerra civil. Diante de uma delegação de bispos sudaneses, Francisco tinha manifestado o desejo de ir pessoalmente ao  país africano para aplicar o “ecumenismo da caridade” no contexto da grave crise humanitária que enfrenta a nação mais jovem do continente. Ainda não há programação oficial do Vaticano sobre a possível viagem do Papa ao Sudão do Sul.

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